terça-feira, 6 de setembro de 2011

Paisagem



"Cada paisagem da minha vida, por ser não um rebanho errante de sensações ou um sistema de juízos efémeros, mas segmento de carne durável do mundo, está prenhe, como visível, de muitas outras visões além da minha, e o visível que vejo, de que falo, mesmo que não seja o monte Himeto ou os plátanos de Delfos, é o mesmo, numericamente, que viam ou de que falavam Platão e Aristóteles."

M. Merleau-Ponty, p. 121

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Perceções



Perceções novas substituem as perceções antigas, e mesmo emoções novas substituem as de outrora, mas essa renovação só diz respeito ao conteúdo da nossa experiência e não à sua estrutura; o tempo impessoal continua a se escoar, mas o tempo pessoal está preso.

M. Merleau-Ponty, p. 123

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Ausência...



Só compreendemos a ausência ou a morte de um amigo no momento em que esperamos dele uma resposta e sentimos que ela não existirá mais; por isso, primeiramente evitamos interrogar para não ter de perceber esse silêncio; nós nos desviamos das regiões da nossa vida em que poderíamos encontrar esse nada, mas isso significa que nós as adivinhamos.

Maurice Merleau-Ponty, p. 120 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Grande...


"Podemos encarar a perspectiva de possibilidades, de probabilidades e de impossibilidades, mas a experiência diz-nos que o impossível pode acontecer, que o provável pode nunca acontecer e, acima de tudo, que podem aparecer novas realidades, completamente impensadas... Nada de grande, nada de fundamental foi alguma vez previsto, nem as suas origens puderam ser retrospectivamente compreendidas."

Karl Jaspers                      

terça-feira, 7 de junho de 2011

Uma viagem à Índia



"Diga-se que pensar não é assim tão fácil.
Certos homens, estando sentados,
esforçam-se tanto por esboçar uma ideia
que acabam banhados em suor.
E entretanto cá fora: nada,
nem a carcaça do mais efémero indício
de inteligência. Cada ideia parece estar nesses cérebros
como num labirinto que só raramente
consegue sair. Bloom pensa naquele pai e nos três filhos.
Que família coerente, murmura."

"Ser leão entre ovelhas é fraqueza, já dizia
um poeta excelentíssimo.
Assim, pois, Bloom, optava, frente aos quatro imbecis -
uma família inteira e sorridente -,
por esconder a inteligência como se esconde um objecto.
Ouvindo, nada respondia,
sorria apenas; como se a simpatia - igual a
uma borboleta estúpida - houvesse pousado nos seus lábios
fazendo destes parapeito inútil que nem beija
nem diz."

Gonçalo Tavares, canto 1, 67/68, p. 53

segunda-feira, 16 de maio de 2011

ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso



Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
 

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.


Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há! Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "Tá! Tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banalidades, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
 

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.


O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A vidinha é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.


Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
 Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.


Nota: Já tem algum tempo, é conhecido, mas muito interessante!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Prudência...


"A prudência que proíbe ir demasiado longe numa sentença quase sempre é agente do controlo social e, portanto, de estupidificação."

TH. W. Adorno, p. 83

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Mesa e cama

"Logo que os seres humanos, mesmo os de bom feitio, amistosos e cultivados, decidem separar-se, costuma levantar-se uma poeirada que cobre e descolora tudo o que com ela entra em contacto. É como se a esfera da intimidade, a letárgica confiança da vida em comum, se transformasse numa substância venenosa com a ruptura das relações em que assentava. A intimidade entre os humanos é indulgência, tolerância, reduto das singularidades. Se ela se transtorna, o momento de debilidade aparece por si só, e com a separação é inevitável uma viragem para o exterior. Esta apropria-se de todo o inventário da confidencialidade. Coisas que uma vez foram símbolos de amorosa solicitude, imagens de conciliação, tornam-se, de súbito, independentes como valores e mostram o seu lado mau, frio e deletério. Professores que, após a separação, irrompem na habitação da sua mulher para retirar objectos do escritório, damas bem dotadas que denunciam os seus maridos por fraude nos impostos. Se o casamento oferece uma das últimas possibilidades de formar células humanas no seio do geral inumano, este vinga-se com a sua desintegração, apoderando-se da aparente excepção, submete-a aos alienados ordenamentos do direito e da propriedade e mofa dos que se julgavam a salvo. O mais protegido transforma-se em cruel requisito do abandono. Quanto mais «generosa» foi originariamente a relação mútua entre os cônjuges, quanto menos tinham pensado na propriedade e na obrigação, tanto mais odiosa será a degradação; pois é no âmbito do juridicamente indefinido que prospera a disputa, a difamação, o incessante conflito dos interesses. Toda a obscuridade em cuja base assenta a instituição do casamento, a bárbara disposição que o marido tem sobre a propriedade e o trabalho da mulher, a não menos bárbara opressão sexual que, tendencialmente, força o homem a assumir para toda a sua vida a responsabilidade de dormir com aquela que uma vez lhe proporcionou prazer - tudo isso é o que se liberta dos sótãos e das caves, quando a casa é demolida. Os que um dia experimentaram a bondade do geral na exclusiva pertença recíproca são agora obrigados pela sociedade a considerar-se patifes e a aprender que eles se assemelham ao geral da ilimitada vilania externa. Na separação, o geral revela-se como a mácula do particular, porque o particular, o matrimónio, não consegue realizar o verdadeiro em tal sociedade."

TH. W. Adorno, pp. 25-26

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Amor maturo - Erich Fromm


"Ao contrário da união simbiótica, o amor maturo é uma união sob a condição de preservar a integridade e a individualidade de cada um. O amor é um poder activo no Homem; um poder que atravessa as fronteiras que separam o indivíduo do seu semelhante, um poder que o une a outrem. O amor faz com que o ser humano ultrapasse a sua sensação de isolamento e de separação e, no entanto, permite-lhe ser ele mesmo, manter a sua integridade. No amor dá-se um paradoxo: os dois seres transformam-se num só e, no entanto, continuam a ser dois."


Erich Fromm, p. 28

"O amor é um cuidado activo pela vida e pelo crescimento daquilo que amamos."

Erich Fromm, p. 33

 

quinta-feira, 31 de março de 2011

Fábula de "La Fontaine"


"O carvalho diz ao junco que a natureza não o abençoou, basta um vento, um pardal que poisa, a corrente do rio e ele tem de se dobrar, enquanto ele, carvalho, ergue-se forte até aos céus. O junco não se mostra infeliz. Vem o vento norte e ao soprar com toda a força dobra muito o junco, sem o partir, mas arranca o carvalho da terra."

In Bergeret, p. 137