segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Voar...


Abre as asas e voa, voa para além do horizonte, sobrevoa em plenitude, o tempo, a paisagem - com atitude.

Voar e desprender, é soltar, dirigindo-se ao luar com plena vontade de ganhar.

Não existem amarras, voar é estar com problemas de aterrar, voa como quem ama, dá-te ao mar sempre à espera do luar!

Angelo 2004



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Mulher...


"(...) a mulher é o ser que projecta a maior sombra e a maior luz nos nossos sonhos. A mulher é fatalmente sugestiva; vive de uma outra vida além da sua própria: vive espiritualmente nas imaginações que frequenta e fecunda."

Baudelaire, C. p. 9

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Diálogo...


"«Desde sempre», diz o autor, «fora glória minha conversar familiarmente, <more socratico>, com todos os seres humanos, homens, mulheres e crianças, que o acaso podia pôr no meu caminho; hábito favorável ao conhecimento da natureza humana, aos bons sentimentos e à franqueza de maneiras que convêm a um homem que quer merecer o título de filósofo. Porque o filósofo não deve ver com os olhos dessa pobre criatura limitada que a si mesma se intitula <homem de sociedade>, cheia de preconceitos tacanhos e egoístas, mas deve, pelo contrário, olhar-se como um ser verdadeiramente católico, em comunhão e relações iguais com tudo o que está em cima e tudo o que está em baixo, com as pessoas instruídas e as pessoas não educadas, com os culpados como com os inocentes.»"

Charles Baudelaire, p. 71

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Liberdade


"Não precisamos temer que as nossas escolhas ou as nossas acções restrinjam a nossa liberdade, já que apenas a escolha e a acção nos libertam das nossas âncoras."

Maurice Merleau-Ponty, p. 612

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Excertos... Educação...


Maurice Merleau-Ponty
1908-1961

"A situação da criança não é mais feliz assim (liberal) do que num sistema de educação autoritário: nas suas relações com o adulto a criança não chegou ao pé da igualdade que poderia dar-lhe equílibrio.
Sempre nos devemos interrogar sobre as razões que nos fazem adoptar uma atitude com as crianças (ainda que ela seja benevolente: pode ser demagogia). Nossa atitude não deve ser resultado de nosso próprios traumas; a criança não deve sofrer o contragolpe dos abalos que tivemos na vida; ela não está lá para servir de consolo aos nossos males pessoais, mas para viver a sua própria vida.
Seria bom que certos educadores não amassem a pedagogia com a paixão sofredora que às vezes encontramos (a criança é por isso mesmo colocada numa situação anormal). O educador deveria sê-lo por amor à vida, e não por ressentimento contra ela.
Problema da mesma espécie existe em toda a psicologia. Há sempre a superestimação ou subestimação do objecto: viver uma relação de igualdade com outrem é o que há de mais raro na nossa experiência. O outro parece-nos mais forte ou mais fraco."

M. Merleau-Ponty, p. 465

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Desafio a comentarem... e agradeço... Dedico aos Homens da Ciência!


"Não se pode ser invejoso ou agressivo para com outrem do mesmo modo que não se pode amá-lo ou depender dele, se formarmos uma só pessoa com ele."

Rosenfeld, H. p. 53

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mensagem...


Não fiquem por estes excertos de leitura, projectem a vossa curiosidade e leiam as obras, a vossa vida ganha outro elan. Todos os autores que cito, insisto, são de quando em vez acrescentados, portanto, não desistam de clicar nos mesmos autores. Tenham paciência. Obrigado.

Angelo

LEV TOLSTÓI - Ressureição



Liev Tolstói, também conhecido como Léon Tolstói ou Leão Tolstoi ou Leo Tolstoy, Lev Nikoláievich Tolstói (Yasnaya Polyana, 9 de Setembro de 1828 — Astapovo, 20 de Novembro de 1910). Atentem na simplicidade intensa das suas palavras. As nuances utilizadas para passar uma mensagem, o trabalho despendido para a nossa compreensão.

"Um dos mais vulgares e divulgados preconceitos consiste em afirmar que cada pessoa tem apenas as suas características determinadas, que existem pessoas boas ou más, inteligentes ou estúpidas, enérgicas ou apáticas, etc. Mas as pessoas não são assim. Podemos dizer de um indivíduo que é mais vezes bom do que mau, mais vezes inteligente do que estúpido, mais vezes enérgico do que apático - e vice-versa; mas será mentira se dissermos que uma pessoa é boa e inteligente, e que outra é má e estúpida. No entanto, classificamos sempre as pessoas desta maneira. O que é incorrecto. As pessoas são como os rios: a água deles é igual, a mesma por todo o lado, mas cada rio ora é estreito, ora é largo, ora é rápido, ora calmo, ora límpido, ora turvo, ora frio, ora quente. As pessoas também. Cada qual transporta em si o germe de todas as características humanas e manifesta ora umas, ora outras, e às vezes nem parece ele próprio, mas continuando, no entanto, a sê-lo. Nalguns estas mudanças são particularmente acentuadas. (...) as mudanças tanto tinham causas físicas como espirituais."

p. 229
"O problema é que as pessoas pensam que há situações em que se pode tratar o próximo sem amor, mas tais situações não existem. Os objectos podem ser tratados sem amor: pode-se cortar as árvores, fazer tijolos, forjar ferro sem amor; mas não se pode tratar as pessoas sem amor, da mesma forma que não se pode tratar das abelhas sem cuidado. É esta a particularidade das abelhas. Se comerçarmos a tratá-las sem cuidado, prejudicá-las-emos e a nós próprios também. O mesmo se passa relativamente às pessoas. E não poderia ser de outro modo, porque o amor recíproco entre as pessoas é a lei fundamental da vida humana. Embora seja verdade que o homem não pode obrigar-se a amar alguém, ao contrário do que acontece com o trabalho em que o homem pode obrigar-se a trabalhar, tal não significa que seja lícito tratar as pessoas sem amor, sobretudo se exigirmos qualquer coisa delas. Se não sentires amor pelas pessoas, fica quieto (...) trata de ti, dos teus haveres, do que quiseres, mas não de outras pessoas. Do mesmo modo que apenas podemos comer sem prejuízo para a saúde, com proveito, se tivermos apetite, as pessoas podem ser tratadas com benefício e sem prejuízo apenas quando lhes temos amor. Basta permitires-te tratar as pessoas sem amor, ... e deixará de haver limites para a crueldade e para a ferocidade em relação aos outros ... e será infinito o teu sofrimento, como aprendeste no decurso de toda a tua vida."

 p. 409



domingo, 26 de setembro de 2010

Don Quijote de la Mancha



Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo que vivia um fidalgo dos de lança em cabide, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor...

"-Senhores, as tristezas não foram feitas para os bichos, mas para os homens; mas se os homens as sentem demasiado, tornam-se bichos...

Capítulo XI

"-Os filhos, senhor, são pedaços das entranhas dos seus pais, e assim se hão-de querer, bons ou maus que sejam, como se querem as almas que nos dão vida: aos pais cabe encaminhá-los desde pequenos pelos caminhos da virtude, da boa educação e dos bons e cristãos costumes, para que, quando adultos, sejam báculo da velhice dos pais e glória da sua posteridade; e o força-los a estudar esta ou aquela ciência não o tenho por acertado, embora não seja danoso o tentar persuadi-los; e quando não se haja de estudar para «pane lucrando», sendo tão venturoso o estudante que lhe deu o céu pais que lho deixem, sou de parecer que lhe permitam seguir aquela ciência para que mais o virem inclinado; e embora a da poesia seja menos útil que deleitável, não é daquelas que desonram quem a possui. A poesia, senhor fidalgo, no meu parecer, é como uma donzela meiga e de pouca idade e em todos os aspectos formosa, a que têm o cuidado de polir e adornar outras muitas donzelas que são todas as outras ciências, e ela há-de servir-se de todas, e todas se hão-de autorizar com ela; mas essa tal donzela não quer ser manuseada, nem arrastada pelas ruas, nem publicada pelas esquinas das praças, nem pelos desvãos dos palácios. Ela é feita de uma alquimia de tal virtude que quem a sabe tratar transformá-la-á em ouro riquíssimo de inestimável preço. Há-de mantê-la, o que a possuir, dentro dos limites, não a deixando correr em torpes sátiras nem em desalmados sonetos; não há-de ser vendável de nenhuma maneira, a não ser em poemas heróicos, em lamentáveis tragédias ou em comédias alegres e artificiosas; não se há-de deixar manipular pelos truões nem pelo vulgo ignorante, incapaz de reconhecer ou de apreciar os tesouros que nela se encerram. E não penseis, senhor, que eu chamo aqui vulgo somente a gente plebeia e humilde; que todo aquele que não sabe, ainda que seja senhor e príncipe, pode e deve entrar na conta do vulgo..."


Capítulo XVI

Dos conselhos que Don Quijote deu a Sancho Pança antes de ele ir governar a ilha, com outras coisas bem consideradas...

"(...) que os lugares e grandes cargos não são outra coisa senão um golfo profundo de confusões. Primeiramente filho, hás-de temer a Deus; porque em temê-lo está a sabedoria, e sendo sábio não poderás errar em nada. Em segundo lugar, hás-de pôr os olhos em quem és, procurando conhecer-te a ti mesmo, que é o mais dificil conhecimento que possa imaginar-se. De te conheceres  resultará o não te inchares como a rã que quis igualar o boi; que se isto fizeres virá a ser os pés feios da cauda em leque da tua loucura a recordação de teres guardado porcos na tua terra. (...) e por isso mesmo os que não têm origem nobre devem acompanhar a gravidade do cargo que exercem com uma branda suavidade que, guiada pela prudência, os livre da murmuração maliciosa, de que não há estado que se livre.
Faz gala, Sancho, da humildade da tua linhagem, e não desdenhes dizer que descendes de lavradores; porque, vendo que não te envergonhas, ninguém se porá a envergonhar-te; e preza-te mais ser humilde virtuoso do que pecador soberbo. São inúmeros aqueles que nascidos de baixa estirpe subiram à suma dignidade pontifícia e imperial; e desta verdade te poderia apresentar tantos exemplos que te cansarias de ouvi-los.
Olha, Sancho: se tomas como norma a virtude e te prezas de praticar feitos virtuosos, não há que ter inveja aos feitos dos príncipes e senhores; porque o sangue herda-se e a virtude adquire-se, e a virtude vale por si só o que o sangue não vale.
Sendo isto assim, que o é, se acaso for procurar-te na tua ilha algum dos teus parentes, não o desdenhes nem afrontes, antes o hás-de recolher, agasalhar e obsequiar, que com isto satisfarás o céu, que gosta que não se despreza nada do que ele fez, e corresponderás ao que deves à natureza bem concertada.
Se levares tua mulher contigo (porque não fica bem que os que governam por muito tempo estejam sem as suas mulheres), ensina-a, doutrina-a e desbasta-lhe a natural rudeza, porque tudo o que ganha um governador discreto, perde-o muitas vezes uma mulher rústica e tola.
Se, por acaso, enviuvares, e com o cargo melhorares de consorte, não a tomes tal que te sirva de anzol e de isca, porque em verdade te digo que, de tudo o que a mulher do juiz receber há-de dar conta o marido na residência universal, com que pagará pelo quádruplo na morte o que ilegitimamente recebeu em vida.
Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os ignorantes que têm presunção de agudos.
Encontrem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, mas não mais justiça do que as queixas dos ricos.
Procura descobrir a verdade no meio das promessas e dádivas do rico e bem assim no meio dos soluços e importunidades do pobre. 
Quando se puder atender à equidade, não carregues com todo o rigor da lei no delinquente, que não é melhor a fama do juiz rigoroso que do compassivo.
Se dobrares a vara da justiça, que não seja ao menos com o peso das dádivas, mas sim com o da misericórdia.
Quando te suceder julgar algum pleito de inimigo teu, esquece-te da injúria e lembra-te da verdade do caso. Não te cegue paixão própria em causa alheia, que os erros que cometeres, a maior parte das vezes serão sem remédio, e, se o tiverem, será à custa do teu crédito e até da tua fazenda.
Se alguma mulher formosa te vier pedir justiça, desvia os olhos das suas lágrimas e os ouvidos dos seus soluços, e considera com pausa a substância do que pede, se não queres que se afogue a tua razão no seu pranto e a tua bondade nos seus suspiros.
A quem hás-de castigar com obras, não trates mal com palavras, pois bem basta ao desditoso a pena do suplício, sem o acrescentamento das injúrias.
Ao culpado que cair debaixo da tua jurisdição, considera-o como um mísero, sujeito às condições da nossa depravada natureza, e em tudo quanto estiver da tua parte, sem agravar a justiça, mostra-te piedoso e clemente, porque ainda que são iguais todos os atributos de Deus, mais resplandece e triunfa aos nossos olhos o da misericórdia que o da justiça.
Se estes preceitos e estas regras seguires, Sancho, serão longos os teus dias, eterna a tua fama, grandes os teus prémios, indizível a tua felicidade; casarás teus filhos como quiseres, terão títulos eles e os teus netos, viverás em paz e no beneplácito das gentes, e aos últimos passos da vida te alcançará a morte em velhice madura e suave, e fechar-te-ão os olhos as meigas e delicadas mãos de teus trinetos. O que até aqui te disse são documentos que devem adornar tua alma: escuta agora os que hão-de servir para adorno do corpo.

Capítulo XLII